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Ofereça esmolas

Diário do Capitão da frota. Ano 15.127 da expansão. Quinta transmissão.   E se eu lhes contasse que não é preciso conquistar esse planeta. Me peguei estudando a história dos humanos novamente e notei algumas regras nas escolhas de seus líderes. Todos eles são eleitos por oferecerem o que o povo mais deseja.    E não é difícil descobrir o que anseiam mais que tudo. Eles gritam para que todos ouçam, escrevem em seus cadernos e em suas páginas na internet, e também estampam em suas vestimentas. Uma pesquisa simples deve resolver. Por exemplo, se eles querem pão, façam-os produzir pão e depois mate sua fome com o que produzirem. Ficarão felizes de tal maneira que irão construir as instalações do império de bom grado   Mas é preciso entender que as vezes seus pedidos são complexos e sem lógica. Um faminto que sonha com o fim de sua angústia é louvável aqui. Pois o desejo da maioria foge da simplicidade, o ódio presente em todos faz com que suas necessidades sejam dest...

Ser ou buscar ser?

O sol está se pondo, a cor do crepúsculo deixa a linda paisagem, sombria. O canto dos pássaros está cada vez mais baixo. Uma névoa começa a se formar trazendo o frio com ela. Eu vim preparado, um casaco verde escuro que minha mãe insistiu pra trazer. Estou sentado em uma rocha, eu a chamo de Pedra do Nada. Venho aqui para pensar ou quando não tenho nada para fazer. Daqui vejo a floresta, o pôr do sol e o pequeno lago das terras vizinhas. A minha fase escolar estava acabando, assim como todos das minha idade eu preciso pensar. O que fazer agora? Qual caminho seguir? A primeira ideia não é minha, mas é a mais presente entre meus amigos. Cursar engenharia e trabalhar para uma empresa. Preciso pensar nos prós e nos contras. Minha família não poderia pagar um curso particular. Talvez pudessem me ajudar a morar fora enquanto curso uma faculdade pública. Não, isso exigiria muito dos meus pais, não vou pedir isso. E se eu ficar em dívida com eles? Assim acabo o curso e volt...

Na Noite - Parte 1 de 2

            Quando o sol se põe a vida nas ruas vai se tornando escassa. Aos poucos as pessoas vão se recolhendo, suas casas as protegem daquilo que está lá fora. Primeiro as famílias, depois os adolescentes rebeldes, após isso os jovens que gostam de curtir e por último os bandidos. Todos acabam se recolhendo deixando a noite para seus verdadeiros donos.             Os barulhos que os humanos fazem durante o dia cessam quando a escuridão chega. Um novo som ecoa. Aqueles que conseguem ouvir sentem medo e não se aventuram a descobrir de onde vem. Aqueles que não ouvem apenas vivem na ilusão de que no mundo tudo lhes pertence.             Um uivo é ouvido ao longe, é o primeiro da noite. Poucos minutos depois se consegue escutar outro. Não demora até que o som se torne apenas uivos. Esse é o primeiro sinal, as ruas são d...

Depois da Nação - Parte 1

Meu nome é Júlio e isso é tudo que posso contar sobre mim, porque eu não sei mais nada. Tudo o que importa é conseguir comida e se manter vivo, não há tempo para pensar em outras coisas. Não sei quantos anos eu tenho, faz muito tempo que não vejo um calendário, mesmo sem ter a noção disso sei que já vivi tempo demais. Minha esperteza fez com que ninguém quisesse me matar, um indigente vivendo nas sarjetas não possui qualquer tipo de arma, não representa ameaça para aqueles que possuem. Esse estilo de vida me deixa alheio a guerra, e mais importante, vivo. Aqueles que vivem melhor se matam todos os dias, todas horas, como nasci nesse tempo não importo com a carnificina, eles não se importariam se fosse eu engasgando com meu próprio sangue. Eu vivo em uma praia afastada de difícil acesso, vim por causa da comida, depois que a sociedade acabou não teve mais pesca predatória e os peixes se reproduziram melhor, não posso reclamar. De longe vejo pessoas sendo alvo dos fuzis dos homens q...

Arranque o passado

Diário do Capitão da frota. Ano 15.127 da expansão. Quarta transmissão.   Nos meus estudos descobri que os humanos possuem muita certeza de quem são. A noção de liberdade deles foi construída ao longo de sua história e é guardada muito bem nas suas memórias e nos espaços físicos de conservação dessa memória. Mas o interessante é que eles não sabem o quanto seu passado é importante, é algo que se pode tirar vantagem.   É possível matar o passado deles, esse trabalho nós, integrantes da missão, já estamos realizando. Primeiro divulguem em seus meios de comunicações mentiras sobre sua história, não precisa ser algo muito elaborado, só uma pequena dúvida que os deixem confusos sobre quem são. Outro trabalho é acabar com todos os seus espaços de história, se for feito aos poucos eles não vão se importar e quando notarem que precisam de algo para se lembrar tudo já estará acabado.   Se me perguntarem o porquê disso: Como sabem quem são, eles ficaram um pouco desco...

Conto do Porteiro mais rico do Prédio - Parte 2

  No mesmo edifício, na mesma cidade trabalha um sujeito com muito dinheiro. À sua volta mora muita gente com muito dinheiro também, mas que gastam muito dinheiro com a coisa mais boba que existe: silêncio.   Conhece alguém que saiba o preço do silêncio? Já tentou comprar um por aí? Silêncio é como aquele cinto feio da off-white, ninguém sabe o preço, mas sabem que é muito caro. Jurandir vendia silêncio, Jurandir vendia muito silêncio. A oferta e demanda eram leis naquele prédio, todos ali precisavam de silêncio, todos compravam, todos estavam ansiosos por comprar, todos ficavam muito nervosos quando não conseguiam fazer sua compra diária. Sabendo do que todos precisavam Jurandir virou um feirante, o cara que vende ovo todo fim de semana às oito da manhã, era como um traficante. As pessoas precisavam dos seus serviços, e não só do silêncio, as pessoas ali realmente precisavam de um traficante.   Sim, muitos moradores ali usavam drogas, usavam muitas drogas, e como er...

Quanto tempo o tempo tem?

Em uma viagem simples de 70 quilômetros eu me encontrava cansado e com uma maldita vontade de dormir. Era nove da noite, o ônibus estava quarenta minutos atrasado, e ao que parece transporte de passageiros não é lucrativo o bastante, pois ficaram mais meia hora na garagem carregando caixas e encomendas que ninguém se importa. Quando estava quase chegando, o motorista estaciona num lugar e grita "PARADA DE VINTE MINUTOS". Estamos à dez minutos de casa, mas paramos em uma lanchonete por vinte. A Experiência me ensinou muito, ficar vinte minutos em um ônibus parado, com ar condicionado desligado e estando com pressa, vinte minutos parecem três horas. Decido sair, vou comprar algo pra comer, porque raiva dá fome. Os preços ali são muito peculiares, 6 reais uma coxinha e 5 um suco de laranja, acho que é sobre isso que se trata quando falam de roubo na rodovia. Descobri que o tempo não é só relativo, ele também é caro.