Na Noite - Parte 1 de 2
Quando o sol se põe a vida nas ruas
vai se tornando escassa. Aos poucos as pessoas vão se recolhendo, suas casas as
protegem daquilo que está lá fora. Primeiro as famílias, depois os adolescentes
rebeldes, após isso os jovens que gostam de curtir e por último os bandidos.
Todos acabam se recolhendo deixando a noite para seus verdadeiros donos.
Os barulhos que os humanos fazem
durante o dia cessam quando a escuridão chega. Um novo som ecoa. Aqueles que
conseguem ouvir sentem medo e não se aventuram a descobrir de onde vem. Aqueles
que não ouvem apenas vivem na ilusão de que no mundo tudo lhes pertence.
Um uivo é ouvido ao longe, é o
primeiro da noite. Poucos minutos depois se consegue escutar outro. Não demora
até que o som se torne apenas uivos. Esse é o primeiro sinal, as ruas são
deles, a vida real começa agora.
Dos becos, das praças e dos lugares
abandonados chegam os renegados. Eles são os líderes, eles vivem nas ruas todas
as horas do dia. A experiência e a capacidade de se adaptar fazem deles
professores. Quando a noite caí eles guiam os novos e os prisioneiros.
A liberdade da madrugada não é para
todos, apenas os fortes e determinados conseguem, o destino da maioria é a
prisão. O confinamento aguarda todos aqueles que não se arriscam e preferem ter
comida fácil e afeto humano. Não se pode culpá-los, as consequências da
liberdade são terríveis. O frio, a fome e muitas vezes a solidão os acompanha.
O primeiro grupo de aproxima do
ponto de encontro. A praça estava escura, embaixo de algumas árvores o frio
estava suportável. Na noite não vigoram as regras de espaço, o calor é mais
importante. Para eles existem apenas duas formas de se aquecer, troca de calor
corporal e correr. Aquele era um momento de ficarem parados e colados uns aos
outros.
A primeira coisa a decidir era sobre
a comida. Alguns dos cães ali não comiam nada em semanas. Alguns dias não
encontravam comida para todos. O grande grupo se separou, pequenos grupos
saíram e foram para todas as direções da cidade. Quando necessário se separavam
em duplas, mas nunca sozinhos, a escuridão não tem piedade com sozinhos e
desavisados.
Uma dupla encontra comida suficiente
para uns dez companheiros, pode-se ouvir um uivo longe, é uma chamada, as
duplas que estavam próximas começaram a correr para o destino. Com seus sensos
de direção apurados todos chegam. Do lixo do restaurante que fuçavam foi
possível encontrar muitos restos comestíveis. A comida que estragava na lixeira
podia ser prejudicial para os humanos, mas para aqueles cães era a melhor das
refeições. Isso se explica por dois motivos, a fome faz com que qualquer
refeição seja saborosa e cães tem um sistema digestório muito resistente, não
vai serão as bactérias do lixo que os irá abalar.
Os cães que estão comendo não param
até que esteja tudo acabado. Ficar satisfeito não é o suficiente, quando eles
olham para o futuro veem a mesma incerteza de antes.
Quando a comida acaba é preciso se
livrar de tudo que não é comestível. Resquícios e bagunça irrita os humano,
isso diminui as chances de encontrar comida ali em outra noite. Não são todos
que vivem com essa regra, as vezes muitas coisas podem ser mais importantes que
limpar a bagunça.
Os alimentados agora que terminaram
a busca para si, partem para encontrar comida para os que não deram sorte.
Sentidos apurados os ajudam a encontrar, com seu olfato apurado, um alimento em
potencial é detectado a longa distância agora é só avisar os colegas.
O tempo da alimentação acaba, como
decidido com o bando é hora de soltar os prisioneiros. Esse é um trabalho
complicado, poucos são capazes. É uma tarefa que exige diferentes habilidades
como cavar, pular, correr, se equilibrar, entre outras. Os responsáveis por
isso tem seus caminhos traçados a muito tempo. Eles sabem quais cães precisam
libertar todas as noites. Essa decisão é relacionada com quais querem e quais
podem ser livres. Não são muitos quanto poderiam, a maior parte deles preferem
ficar em casa, o calor do lar humano os cega. Para os que não podem fugir é
recomendado que vivam da melhor maneira que podem dentro de seus lares. A pior
sentença é reservada para aqueles que reclamam.
Com todos soltos acabam as tarefas
de alguns. Esses podem fazer as coisas que gostam. Mas para outros ainda há
deveres a fazer. Conseguir comida para os filhotes é dever da mãe durante o
dia, mas na noite muitos ajudam. É um trabalho difícil, transportar comida não
é da natureza dos cães como é dos pinguins. Levar os filhotes até a comida é
mais fácil. Filhotes também não podem comer qualquer coisa, seu corpo não está
pronto. Alguns dos prisioneiros tem comida a sua disposição em todas as horas.
Os que podem, partilham.
Todos são comprometidos com o bem
estar dos recém nascidos. Abortos e rejeições são frequentes, é preciso salvar
os fortes. Rejeitar seus filhotes é difícil para uma mãe, mas elas sabem que é
necessário. Os cães possuem uma visão prática do mundo em que vivem. Apenas por
ser um cão a vida já vai ser dura, a dificuldade apenas os fariam sofrer e
ninguém os ajudariam a ter uma vida aceitável. Uma morte prematura acaba com
todo sofrimento. O medo de ficarem sujos de sangue não os impedia de fazer o
que era certo e digno.
Para os melhores durante a juventude,
resta uma vida na velhice. Os comuns não a atingem. Poucos se vão de forma
natural entre os livres, é um mundo cruel.
Os idosos preferem se movimentar
durante o dia, o frio em seus ossos é mais suportável quando estão deitados sem
se mexer. Alguns jovens deitam com eles, isso é bom para as ambas partes. Os
jovens esquentam o ancião e ele lhes passa experiência de vida. Para os jovens
isso é muito importante, só há um meio de se aprender nesse mundo cão, através
da experiência dos mais velhos.
Uma boa parte dos cães passam seu
tempo livre da noite apenas ouvindo. Nenhum deles quer morrer ou ser
maltratado. As dicas dos anciões os ajudam nisso. Quais são os melhores lugares
para se achar comida, onde não se deve ir, quais comidas evitar. A sabedoria da
experiência pode evitar acidentes desnecessários.
Acidentes estão sempre ligados a
humanos. As mortes prematuras são quase todas com relação a eles. A principal é
de longe os acidentes. Os veículos que
usam são como máquinas de morte para os cães. Distraídos que se aventuram pelas
ruas não tem segundas chances. Por isso é recomendável ter companhia. Ser
avisado antes de um atropelamento é a única salvação.Alguns humanos nesses
veículos param quando veem um cão, mas não são todos. Dos “quase” acidentes
surgem os aprendizados. O medo perante um carro avançando deixa traumas, após
isso os cuidado são redobrados.
Os anciões capazes, ensinam aos
jovens a ignorar os instintos. Esse é o segundo maior inimigo de um cão.
Instintos podem lhes deixar em terríveis situações. Quando um humano demonstra
medo, o instinto fará com que o cão avance, isso é praticamente pedir para se
machucar. Na melhor das hipóteses aquele humano irá lhes dar uns bons pontapés,
mas nem sempre as consequências de um ataque acaba bem para um cão. Evitar os
instintos pode salvar suas vidas.
Para aqueles que não gostam de
passar seu tempo livre ouvindo os mais velhos, tem infinitas opções. Correr é o
passatempo de muitos. A corrida na noite é satisfatória, vento contra o pelo,
calor pelo exercício e a sensação de liberdade. Correr sem destino é a máxima liberdade
que um cão pode ter. E isso é o sonho deles, pois muitos viveram nas correntes
dos humanos. É verdade que muitos se conformam e gostam dos lares, mas existem
aqueles que a vida toda tentam se livrar das amarras.
As limitações são muitas, a mais
comum os portões e os muros das propriedades. Poucos os que podem escapar,
esses portões as vezes são complementados com grades finas, que impedem até o
menor dos filhotes de passar.
Os cães que servem para proteger o
patrimônio dos humanos só podem contemplar de longe a liberdade dos outros. Mas
na noite não há diferenças, todos servem a um único propósito: continuar vivos.
São os cães de casa que informam tudo o necessário a respeito de cada humano.
Não há dúvidas que os humanos
dizimaram inúmeras espécies de animais, para viver no mundo deles foi preciso
se adaptar a eles, os que tentaram o confronto estão mortos. Humanos gostam de
controlar as ações de todos, quando algo dá errado eles sacrificam. Como podem
chamar assassinato de sacrifício? Como podem usar essa palavra tão
erroneamente? Todos os dias muitos cães morrem para que outros fiquem vivos,
muitos ficam a vida toda presos para que outros possam ser livres, isso é
sacrifício. Foram centenas de anos para se adequar aos costumes humanos, mas o
progresso ficou visível.
Após comer, trocar informações,
fazer suas tarefas e seus passatempos, ainda sobra tempo antes que a noite
acabe. A maioria prefere dormir. Com a escuridão vem a calmaria e a ausência de
humanos. Por mais que fosse contraproducente dormir quando se pode fazer
infinitas coisas sem supervisão, aquele era um momento de paz. Dormir com
humanos e suas máquinas fazendo barulhos sem cessar é difícil e não é tão bom.
Aqueles que não dormem passam seu tempo acasalando, perseguindo gatos e
tentando caçar.
O número de cães caçadores vem
diminuindo substancialmente. Alguns pensam que as suas habilidades ficaram
escassas, outros pensam que eles estão ficando moles por conta da vida boa que
os humanos lhes proporciona. Estão errados, os caçadores sofrem com a falta de
presas. Humanos só se importam com animais quando esses lhes são úteis. Cães
servem como mascotes e para proteger suas propriedades. Os animais caçados não
possuem utilidade aparente, por isso estão se acabando. A expansão da sociedade
humana no planeta destrói habitats naturais, morada de muitos e um número
pequeno de espécies foi capaz de se adaptar ao mundo humano.
Quando a noite acaba a lógica da
vida dos cães muda. A liberdade é suspensa. É hora de parar de viver uma vida
de cão e passar a viver da forma que um humano acha que é a vida de um cão. É
preciso interagir, ser carinhoso e latir para os estranhos. Andar devagar é
lei, humanos não gostam de cães que correm, parece que vão atacar.
Durante o dia muitos procuram e pedem
comida, mas isso é perigoso. Se deixar rastros de bagunça a noite, já é
possível que aconteçam agressões, ser pego vem com a certeza de que haverá
consequências.
Se reproduzir durante o dia é
liberado, desde que não atrapalhe ninguém. Quanto a isso é preciso fazer muito,
o mais rápido possível. Humanos estão controlando a natalidade de cães em
grande escala, dizem que é melhor para todos. Como podem falar isso se não
controlam nem a própria taxa de natalidade?
Milhares de humanos nascem todos os dias, deixando o planeta cada vez
mais cheio.
Além disso não há mais atividades
para o dia. Se for descoberto que outra espécie pode se organizar e se adaptar,
ela não viverá por muito tempo. Se fazem isso até com eles mesmos, quem dirá
com uma espécie sem utilidade.
Tudo isso não os abate, as
injustiças serão corrigidas. É preciso esperar, é preciso ser forte, é preciso aguardar
na noite. Quando a situação mudar, eles irão estar lá e tomarão o que é deles.
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